“A regreção da redassão”

“Semana passada recebi um telefonema de uma senhora que me deixou surpreso. Pedia encarecidamente que ensinasse seu filho a escrever:

- Mas, minha senhora – desculpei-me –, eu não sou professor.

- Eu sei. Por isso mesmo. Os professores não têm conseguido muito.

- A culpa não é deles, a falha é do ensino.

- Pode ser, mas gostaria que o senhor ensinasse o menino. O senhor escreve muito bem.

- Obrigado – agradeci –, mas não acredite muito nisso. Não coloco vírgulas e nunca sei onde botar os acentos. A senhora precisa ver o trabalho que dou ao revisor.

[…]

Comentei o fato com um professor, meu amigo, que me respondeu: ‘você não deve se assustar, o estudante brasileiro não sabe escrever’. […] impressionado, sai à procura de outros educadores. Todos me disseram: acredite, o estudante brasileiro não sabe escrever. Passei a observar e notei que já não se escreve mais como antigamente. Ninguém faz mais diário, ninguém escreve em portas de banheiros, em muros, em paredes. […]

- Quer dizer – disse a um amigo enquanto íamos pela rua – que o estudante brasileiro não sabe escrever? Isto é ótimo para mim. Pelo menos diminui a concorrência e me garante o emprego por mais dez anos.

- Engano seu – disse ele. – A continuar assim, dentro de cinco anos você terá que mudar de profissão.

Por quê? – espantei-me. – Quanto menos gente sabendo escrever, mais chances eu tenho de sobreviver.

- E você sabe por que essa geração não sabe escrever?

- Sei lá – dei com os ombros –, vai ver que é porque não pega direito no lápis.

- Não, senhor. Não sabe escrever porque está perdendo o hábito de leitura. E quando o perder completamente, você vai escrever para quem?

Taí um dado novo que eu não havia considerado. Imediatamente pensei quais as utilidades que teria um jornal no futuro: embrulhar carne? Então vou trabalhar num açougue. […] Imaginei-me com uns textos na mão, correndo pelas ruas para oferecer às pessoas, assim como quem oferece hoje bilhete de loteria:

- Por favor amigo, leia – disse, puxando um cidadão pelo paletó.

- Não, obrigado. Não estou interessado. Nos últimos cinco anos a única coisa que leio é a bula de remédio.

[…]

- E o senhor, vai? Leva três e paga um.

- Deixa eu ver o tamanho – pediu ele.

Assustou-se com o tamanho do texto.

- O quê? Tudo isso? O senhor está pensando que eu sou vagabundo? Que eu tenho tempo pra ler tudo isso? Não dá pra resumir tudo em cinco linhas?

[…]

Não há dúvidas: o estudante brasileiro não sabe escrever. Não sabe escrever porque não lê. E não lendo também desaprende a falar. […]

[…] os estudantes não escrevem, não lêem, não falam, não pensam. Tudo isso me faz pensar que estamos muito mais perto do que imaginava da Idade da Pedra. A prosseguir nessa regressão, ou regredir nessa progressão, não demora muito e estaremos todos de tacape na mão reinventando os hieróglifos. Neste dia então a palavra escrever ganhará uma nova grafia: ex-crever.”

 

NOVAES. Carlos Eduardo. Os mistérios do aquém, 2ª. ed. Rio de janeiro, Nórdica, 1976

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Published in: on abril 14, 2008 at 11:45 am  Deixe um comentário  

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